Pandora. Caixa, caldeirão e dualidade.

Atualizado: 25 de Mar de 2020







Sou muito encantada pela mitologia. Um mito não é uma mentira, é um simbolismo complexo da natureza humana em suas várias faces e sempre nos ajuda a observar um pouco mais, sobre nós. São as forças masculina e feminina, em sua máxima expressão de dualidade.


É possível perceber que o Olimpo é aqui mesmo.

Uma enorme confusão de desejo, vaidade, traição, medo, raiva, comemoração, expectativa, bondade, amor, bençãos e maldições; que vem descrito de épocas absolutamente patriarcais e, só por isso, influencia os papéis que "devemos" ter na vida.

Ainda por ser de narrativa patriarcal, às figuras femininas cabe a culpa.

Estas sobreposições, facetas da humanidade, deixam-se mostrar naturalmente na maneira como lidamos com a vida, revelando-se nas mulheres e nos homens.


Você lembra quando sustentou tudo sobre seus ombros? O Atlas fez isso.

E quando trancou dentro de si, todas as dores? A Medusa sabe.

E quando não queria, não queria, mas foi? Ah, Perséfone...


Desde os doze anos, por puro apaixonamento, pesquiso sobre variadas mitologias e sempre encontro dentro de mim Górgonas, Hércules, Perseus, Afrodites e Perséfones. Acho maravilhoso mexer neste caldeirão.


Terapeuta por traço de personalidade, que depois foi se encontrando com a profissão, observo que cada cliente traz, guardadinha, a sua própria caixa de Pandora.


Pandora, é somente mais uma das mulheres sobre as quais pesa a culpa de tudo que sai errado no mundo. Afinal, quem mandou abrir a caixa, sua teimosa curiosa!


O fato é que mulheres são predominância no universo da busca terapêutica, beneficiando aos muitos homens que decidem investigar o caminho que elas decidem traçar e também encaram as suas caixas. Fico sempre muito grata quando homens se dispõe à investigação terapêutica, pois acabam encontrando as suas valentes Pandoras.


Pandora foi "inventada" por três figuras masculinas; Zeus, Prometeu e Epimeteu, a partir da discórdia entre eles. A intenção de Zeus era iludir e castigar os homens; olha eles aí no centro do universo novamente... não importando que, para isso, usasse a figura de uma mulher.


À Pandora foram concedidos os dons de encantar, Atena lhe deu o sopro de vida, a deusa Afrodite lhe deu beleza, o deus Apolo lhe deu uma voz suave e Hermes lhe deu persuasão. Conduzido por Pandora havia o tal do jarro, ou caixa, onde estavam as piores coisas que assolam, até hoje, a humanidade e são ditas como o castigo que Zeus destinou.


Pandora não deveria abrir a caixa, o marido avisou que ficasse quieta, mas a curiosidade investigativa, sobre querer saber o que tem lá dentro, superou o medo do desconhecido e sim, ato de coragem, abriu!


Pandoras, mulheres e homens, cada vez mais trazem suas caixas.

Às vezes pequenas, outras vezes, em caixas enormes. Algumas são coloridas, pintadinhas de disfarce da dor, outras caixas são quase um blindado.

Outros olham para a caixa, mas ainda não está disponível para abrir e, de acordo com as suas prioridades, poderão permitir esta abertura.


Abrir a caixa de Pandora, no meu sentir, é entrar em contato com aquele monte de coisas que Zeus declarou como castigo para os seres humanos. Ser uma figura feminina, representa o quanto tudo que é do feminino, do sensível, do criativo, vem sendo ferido e trancado, nas mulheres e nos homens, ao longo de eras.

O paradoxo é que somente da sensibilidade e vulnerabilidade se pode tecer novas hipóteses.


Sobre o mito de Pandora, aquela que ousou abrir a caixa e fazer ferver o caldeirão, pesa a culpa; e muitas pessoas quando começam a terapia, inconscientemente, acham que não deviam ter aberto a tal caixa, que são culpadas por seus sintomas e comportamentos. Acham até que suas mudanças positivas, que fazem a família estranhar e os amigos ficarem um pouco aflitos, quando percebem novos limites sendo propostos, não deveriam acontecer.


Mas, para Pandora também destina-se o legado e a guarda da esperança que está, ainda, lá dentro da caixa. Não é uma esperança vazia.

É uma vibração de que há algo ainda não explorado, algo que sugere que tudo pode mudar a qualquer instante. A esperança é em si mesma, em si mesmo.


É a eterna dualidade. Do mesmo lugar de onde saíram as dores, também repousa o entendimento e a força; e poderá ser necessário um novo ato de curiosidade ou coragem, para verificar o que mais existe lá dentro, por trás de cada sintoma ou comportamento.


Celia Barboza







Segue um texto maravilhoso, com as devidas referências.

https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/ Filipe Rangel Celeti - Filosofia"


"A história de Pandora e sua caixa está presente nas narrativas mitológicas dos antigos gregos.

Conta a história que o titã Prometeu (aquele que vê antes) e seu irmão Epimeteu (aquele que vê depois) criaram os animais e os homens. Deram a cada animal um poder, como voar, caçar, coragem, garras, dentes afiados. O homem, criado por Prometeu a partir da argila, ficou sem nada por ser o último a ser feito. Prometeu deu um pouco de cada animal para o homem, mas faltava alguma coisa especial.

Prometeu ensinou diversas coisas ao homem. Ensinou a domesticar animais, fazer remédios, construir barcos, escrever, cantar, interpretar sonhos e buscar riquezas minerais. Porém, enfureceu Zeus ao roubar o fogo dos deuses e dá-lo aos homens. Zeus decidiu, então, vingar-se de Prometeu e dos homens.

Prometeu foi acorrentado a uma montanha. Sua condenação foi passar a eternidade preso a uma rocha, aonde uma ave viria comer seu fígado. Toda noite seu fígado se regeneraria e a ave voltaria no dia seguinte pra lhe comer o fígado novamente.

Para castigar os homens, Zeus ordenou que o Deus das Artes, Hefesto, fizesse uma mulher parecida com as deusas. Hefesto lhe apresentou uma estátua linda. A deusa Atena lhe deu o sopro de vida, a deusa Afrodite lhe deu beleza, o deus Apolo lhe deu uma voz suave e Hermes lhe deu persuasão. Assim, a mulher recebeu o nome de Pandora (aquela que tem todos os dons).

Pandora foi enviada para Epimeteu, que já tinha sido alertado por seu irmão a não aceitar nada dos deuses. Ele, por “ver sempre depois”, agiu de forma precipitada e ficou encantado com a bela Pandora. Ela chegou trazendo uma caixa (não era necessariamente uma caixa, mas um jarro) fechada, um presente de casamento . ;)

Epimeteu pediu para Pandora não abrir caixa, mas, tomada pela curiosidade, não resistiu. Ao abrir a caixa na frente de seu marido, Pandora liberou todos os males que até hoje afligem a humanidade, como os desentendimentos, as guerras e as doenças. Ela ainda tentou fechar a caixa, mas só conseguiu prender a esperança.

Desde então a história de Pandora está associada com fazer o mal que não pode ser desfeito. Nesse mito também está o nascimento do pensamento sobre o bem e o mal que a mulher pode causar.

É interessante perceber o motivo de a esperança estar presente entre os males trazidos por Pandora à Terra. Para algumas interpretações, a esperança está guardada e isso é bom. Entretanto, compreendendo a lógica do mito, pode-se ler a história de forma pessimista, pois a esperança está guardada dentro da caixa e a humanidade está sem esperança. Essas duas leituras admitem que a esperança seja algo bom.


Diferente da leitura anterior, Friedrich Nietzsche (1844-1900) escreveu, em Humano, Demasiado Humano, que “Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens”.


Filipe Rangel Celeti - Filosofia"

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