O tamanho que as coisas têm.

Atualizado: 9 de Set de 2019


Dentre os livros que marcaram minha infância, Alice no País dos Espelhos de Lewis Carrol e A Chave do Tamanho de Monteiro Lobato, até hoje me trazem lembranças associativas à muitas questões da vida.

Primeiro porque nunca me senti muito do meu tamanho. Na verdade eu não sabia o tamanho que eu tinha e nem os espaços onde eu cabia.

Às vezes eu recebia notícias no meu tamanho, atualizado para a sensação de ser grande ou pequena, conforme eu agradava ou não, atendia ou não a algum requisito da vida.


Só que esta sensação de incongruência espaço-temporal, numa eterna dúvida se eu caberia ou não, refletia-se no espaço interno, na própria sensação de força e, sem dúvida alguma, naquilo que eu via no espelho.

Afinal, como eu poderia caber em algumas situações e em outra não?

Afinal de contas, qual é o meu tamanho?


Drama. Mesmo.

Como eu sei disso? Simplesmente investigando.


Eu fazia balé, adorava jazz dance. E eu era ótima! Rapidamente aprendia as coreografias, meu corpo era receptivo e elástico e eu nasci com ritmo dentro de mim.

Mas sabe aonde eu dançava? Lá atrás. Apesar de alguns professores me mandarem dançar na frente... eu "gostava" de ficar lá atrás. Gostava é uma "conjugação temporal justificativo inconsciente" para a incapacidade de reconhecer que eu tinha medo de crítica.

E posso te confessar, até hoje eu gosto muito de sentar lá no fundão durante as aulas. Embora existam muito menos dúvidas sobre tamanho, ainda é confortável.

Hoje eu posso contar sobre isso, porque dia a dia examino meu tamanho e meu espaço no mundo.

Há muitos anos faço palestras e fico muito confortável à frente do público. Para quem não ia na excursão da escola, mudei bastante.


O que eu quero explorar neste texto é a relatividade do que vem a ser tamanho, espaço, distância e tempo.


Quando Emília, na Chave do Tamanho, resolve desligar a chave da guerra, acaba mexendo em outras chaves e fica relativamente menor. Menor e frágil à princípio.

Mas a danadinha logo entende que, daquele tamaninho, ela pode futucar o micro mundo que grandona, não poderia.

Isso é um tesouro!

Quando estamos nos sentindo pequena(o), frágil, fora de contexto, estamos observando o micro universo interno. Todas as sensações e percepções são verdadeiras. Elas estão lá e te pertencem, mas não são únicas. Mas são um tesouro que te leva à encontrar o que está por trás, as sombras.


Quando Alice,no Pais dos Espelhos, entra espelho adentro e vai parar num lugar esquisito, que questiona além do tamanho, a relatividade das coisas, onde ora ela fica enorme e se torna uma ameaça, ora o teto a achata; sem contar que ela tem que passar por várias etapas que se assemelham à um jogo de xadrez.

"Isso é muito irritante, diz Alice"


Hummm! Irritante não é? Que lhe parece esta resposta frente às questões?


Um pouco mais sobre relativização é a questão da distância. Coisas enormes, de longe, não são tão ameaçadoras. E, se pudéssemos, colocaríamos todos os nossos problemas longe como estes álamos da foto. Até abaixada fico maior que eles, somente porque estão em perspectiva. Se estivesse lá no meio, eu não estaria visível.


Então é assim, longe-perto, dentro-fora, grande-pequeno.


Onde e como você tem sentido o tamanho das suas questões e o seu tamanho ou força em relação às questões?

Se você puder, faça um exercício de Emília ou de Alice e perceba o que mantêm esta sensação.

Medo, apego, vontade, raiva?


Na área da ciência, a física informa que espaço-tempo é o sistema de coordenadas utilizado como base para o estudo da relatividade restrita e relatividade geral. Mas os físicos passam suas vidas estudando as razões conhecidas como espaço e tempo, trazendo novos conceitos que tornam-se novas formas de pensar e novas possibilidades de sentir e nós somente queremos nos livrar do que chamamos dor.


Por isso mesmo, acredito nos processos terapêuticos que investigam o equilíbrio-desequilíbrio de energia e consciência, trazidos das experiências do corpo em relação aos eventos, aos já conhecidos espaço-tempo.


O sentir também é relativo, é a interseção entre o tempo-espaço interno.

Pode ser que um imenso mal estar, seja a sensação de ter o espaço ocupado por algo que você não quer.

Pode ser que agora, você possa virar uma chavinha do tamanho.


Onde você está colocando seu monstrinho de estimação. Dentro? Perto?

Mas... ele está mesmo lá, ou é somente uma imagem distorcida no espelho?









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