Mergulho Profundo

Foi de repente. Então a onda chegou, molhando os pés de todas as pessoas, arrastando seus pertences para longe, enchendo de areia e mar tudo em volta.

Os que estavam no mar, percebendo a enorme onda mergulharam; os que quiseram ficar na superfície foram jogados na areia e ficaram um pouco arranhados. Alguns riram, outros choraram e o mar seguiu sendo ele mesmo.


É fato que todos estamos de algum modo experimentando mergulhos, ou mesmo aprendendo a nadar e surfar nas águas deste momento que ainda experimentamos como novo.

Será assim por algum tempo, até que seja prioridade mergulhar.


Ao imergir em direção aos mistérios, um mergulhador vai cada vez mais deixando a luminosidade e se aproximando de paisagens surpreendentes; longe do ofuscar da superfície, daquilo que é visível à todos, existe muita coisa vivendo.

É um ambiente de sombras, de nuances, vasto e silencioso, com criaturas adaptadas àquelas condições, vivendo sob absurda pressão e numa diversidade estonteante.

De acordo com a profundidade, perde-se a noção do que é superfície ou fundo e nada mais está separado. Em compensação, é possível alcançar uma enorme sensação de paz e de ausência de tempo. É por essa razão que mergulhos desta natureza não devem ser praticados sozinho; precisa-se de alguém que conduza com segurança até voltar à superfície.


Há algum tempo, assistindo a apresentação de um pesquisador da vida marinha, ele relatou emocionado o enfrentamento do medo durante um mergulho.

Era noite e ele estava sozinho. Embora não fosse em grande profundidade, a escuridão induzia a sensação e o sentimento de solidão e medo profundos o alcançaram.

Ele teve medo de se perder, de não ver mais a sua filha, de ter um mal súbito, de ser atacado. Então prestava atenção nos tempos da respiração, regulava a puxada de ar, conferia os níveis de oxigênio, pulsação, respostas musculares, focava em si. E seguia. Os terrores acalmaram quando ele encontrou uma maternidade de arraias e pode registrar várias espécies deste lindíssimo animal marinho. Quando ele viu pelo que mergulhava, tudo fez sentido.


Há paisagens visíveis apenas e unicamente se mergulhamos. Assim são os processos terapêuticos.

Certamente enfrentaremos o medo, a dúvida, a pressão de estar entre paredões de pedras submersas, a solidão. Mas também teremos surpresas descobrindo as paisagens internas, que nem sabíamos que estavam lá e então fará sentido.

Exatamente como mergulhar, é preciso alguma aptidão, vontade, tentativa, repetição, persistência, desenvolvimento de estratégias, mais persistência, disciplina, foco, entrega. É preciso perceber até, que nem todos os dias são apropriados para mergulhar e a prioridade será se contentar com as espumas das ondas. Também será preciso aceitar ridículas boias para não afundar, enquanto a mente linear e lógica por excesso, critica esta fase como desperdício de tempo. Talvez a onda do ego venha e ainda provoque uns arranhões quando de encontro com a areia do controle.

Pode ser também que quando uma onda de medo ou raiva venha, arraste todas as crenças de mundo ideal e espalhe tudo pela praia da auto estima, derrubando os castelinhos das certezas laboriosamente construídos, jogando a areia da transitoriedade em tudo que era considerado sólido e bem arranjado.


Então, pode ser que cansados de tanto movimento, o olhar se fixe no mar imenso e venha uma vontade legítima de ir, aos poucos e respeitosamente, para a imensidão.

Neste momento, apesar das ondas na superfície, já se sabe que mergulhar é a maneira de parar de ser sacodido de lá para cá. Mergulhar é o próprio senso de centramento, de conexão com a experiência de presença. Sem pressa, desfrutando de cada centímetro desta experiência, abrindo-se a perceber as novas informações que antes eram rejeitadas pelo agito da superfície, embora haja imensa beleza nessas ondas imprevisíveis.


O mar da atualidade anda bastante agitado, super exigente para que se aprenda a dar braçadas rapidamente, numa grande corrida tresloucada, em direção a um ponto qualquer no horizonte. Alguns se lançam e são jogados de volta a areia, outros se mantêm lá em cima até esgotar a onda, pois todas as experiências são importantes neste cenário que é o mundo.


Mantenho em mente a experiência do mergulhador, que sabe dos tesouros da profundidade, do enfrentamento necessário, do silêncio, do estado contemplativo e atento ao corpo como bússola muito confiável, guiando a experiência e fazendo os aprendizados disponíveis em auto amor, gentileza e até mesmo paciência, para se aceitar inteiramente.

Alguns rirão, outros chorarão e o mar seguirá sendo ele mesmo.

A foto maravilhosa é do britânico Alexander Mustard, documentando um mergulho entre as placas tectônicas.

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