Consciência e estratégia

Atualizado: 9 de Jun de 2020


O ciclo circadiano.


No ano de 2017 três cientistas americanos receberam o prêmio Nobel de Medicina, ao "descobrirem" o ritmo circadiano, que é o ciclo biológico que controla, entre outras funções, o ciclo de sono e vigília.

Descobriram também que o ritmo circadiano está relacionado com a alimentação e a imunidade.

Fiquei realmente feliz, pela ciência ter se aproximado do que a Medicina Tradicional da parte oriental do mundo, conhece há séculos.

Estudiosos catalogam que as primeiras compilações sobre a acupuntura, datam de cerca de 5.000 a.C., outros relatam que teria sido por volta de 221 a.C.

Quando olhamos para os ensinamentos trazidos pela Ayurveda, datam de até 7.000 a.C.

Nestas duas vertentes do conhecimento humano, pelo menos dois fatores são coincidentes: o ser humano como parte inseparável da natureza e os horários do corpo.

Na MTC, conhecemos como Ciclo Circadiano, que é aquilo que o corpo está fazendo em cada momento das 24 horas, que convencionamos chamar de "um dia", e se relaciona com os ciclos de luz e escuridão.


Por essa razão temos, ou deveríamos ter, horários para dormir, comer, produzir, descansar, fazer exercícios e até, contemplar.

Também é facil compreender a razão de certas tipologias de exames de sangue, serem colhidos dentro de um limite de horário, já que temos ciclos de produção e liberação de hormônios.


Então o ciclo circadiano, não é somente sobre dormir e estar acordado.

É sobre o próprio discernimento para a vida. É sobre uma organização inteligente e sincrônica que considera o meio ambiente como parte integrante. A logística do corpo é perfeita.



Consciência de discernimento


Em geral, os animais aprendem muito cedo sobre os alimentos que devem comer e aqueles dos quais devem se afastar, seus sentidos são bem treinados. Isto é discernimento. Simplesmente se afastam ou se aproximam.

Este discernimento também informa sobre os ciclos de reprodução, sobre o clima, sobre a direção a seguir.

Trata-se de uma sabedoria natural, que é fortalecida porque seus corpos funcionam de acordo com o seu ciclo circadiano.

Como seres humanos, tecnológicos e ansiosos, a medida em que nos afastamos da nossa própria natureza orgânica, voltados que somos ao externo, a tudo que se pode comprar e expor, passamos a privilegiar o sentido da visão; o mundo nos invade pelos olhos. Muitas vezes, fechar os olhos por um minuto já é muito caótico.

A hiperestimulação nos desconectou. É fato comum ver pessoas fazendo suas refeições acompanhadas dos seus celulares, sem nenhuma percepção daquilo que estão colocando para dentro de si. Então termina-se o almoço, cheio e mal nutrido. Se não há atenção, o aproveitamento da energia do alimento não ocorre integralmente; e logo, logo, virá a vontade de ingerir algo em busca de satisfação, pois o discernimento alimentar é cada vez menor.


Outro impacto já comprovado, nestes tempos de confinamento e internet, refere-se ao crescimento de acesso aos sites de pornografia. Igualmente, falta nutrição emocional. Igualmente, o discernimento não está disponível, os sentidos estão feridos e encher-se de toxicidade, acaba sendo a resposta.


Para que o sistema integrado, corpo-mente, tenha melhores condições de equilíbrio, de forma que repercuta na capacidade criativa e busca por opções e decisões, é preciso praticar o discernimento.



Muita informação!


Esta sensação de confinamento, ativa uma série de mecanismos do estresse, que é um fator orgânico, baseado na resposta luta-fuga.

Mas, há uma outra faceta neste processo, que é algo semelhante a guerra mental.

Este estado de trincheira, sem saída, impulsiona para a necessidade de busca de soluções; esta busca é amplamente atendida pela profusão de informações disponíveis, em todos os meios de comunicação da nossa época.

O que fazer com tantas informações? A quem seguir? O que seguir? Quanto tempo isso vai durar? Qual a melhor prática? O que faço com esse tempo?


Para ter uma resposta adequada, é preciso discernimento.

Para ter discernimento, é fundamental que o relacionamento eu-comigo mesmo, seja "apreciado" pela pessoa.


E , para que este relacionamento aconteça, é preciso perceber o que você está fazendo.

Se atravessa noites na internet; não se importa com o alimento; substitui a água por gasosos, alcoolicos e adoçados; não preza pelo sono; esperar que as práticas tão amorosamente compartilhadas por muitos terapeutas, empreendedores, pensadores, é um ato sem discernimento algum e, ao que me parece, um dos fatores de não conseguirmos aplicar o que aprendemos, pela insistente ofensa ao ciclo circadiano, onde falta energia e clareza mental.


Nosso relógio mental grita por urgência, mas o relógio biológico segue sua função, tentando manter a vida.


Desta forma é que, apesar de tantas informações, não conseguimos filtrar com discernimento, aquela que está adequada, que é coerente para si.


Assim como o ciclo circadiano, que todos os dias faz a mesma coisa, é preciso construir uma rotina.


Práticas, existem muitas. Não ser capaz de escolher e sustentar a auto observação, é ausencia de discernimento, pois os seus horários estão interferidos e os circuitos hiper exigidos e as dores no corpo podem ser companheiras inseparáveis



Mentira - Verdade - Mentira


Então estamos em casa, presos. Mas onde estávamos antes?

Será verdade que se amava tanto assim aquele trabalho?

Será verdade que é vital aquele encontro?


A vida tornou-se um estar fora o tempo todo, orientada pela sociedade altamente competitiva. Melhores escolas cada vez mais caras, restritas e separadoras; obrigando pais e mães ao trabalho contínuo, para custear um tipo de sonho, um tipo de bolha, onde só ali seus filhos estariam seguros.


Estamos coletivamente preocupados com a sobrevivência, é claro, mas é necessário desenvolver um outro olhar sobre este tema.


É sempre duro quando nossos modelos ideiais se modificam. Mas há tanta coisa acontecendo, que não deveríamos saltar de um prisão para a outra.


Antes não se tinha tempo. Agora o tempo é demais.

Verdade, mentira, verdade.


Mais uma vez, é fundamental discernir sobre este novo tempo.

As terapias da consciência e da energia, são unânimes em expressar que tudo é parte, tem lugar, é equilíbrio entre yin e yang e que a modificação começa por dentro, quando podemos mudar a perspectiva.


Venha para dentro, em algum momento do seu dia, venha para dentro, ao encontro de si.


Há uma epidemia fora e um cataclisma dentro. É sobre consciência. É sobre podermos acolher nossas verdades e mentiras que contamos para nós mesmos.



Entre memória e criatividade


Em uma situação de menos movimento e sensação de menos espaço, o corpo em equilíbrio vai exigir menores quantidades de alimento, "SE" o sistema estiver equilibrado. Se este discernimento está em boa forma, a energia do alimento será aproveitada de forma mais eficiente.

Os meninos na caverna praticaram o silencio da mente, conectados com o que o ciclo circadiano lhes comunicava. Estavam no escuro, meditavam, repousavam.

Isto lhes permitiu esperar, mantendo-se saudáveis, mantendo a energia funcional corretamente direcionada.


Não somos os meninos na caverna.

Não aprendemos a silenciar a mente.

Não aprendemos a repetir resignadamente as práticas.

Não damos atenção à nossa logística interna.

Desconectamos do discernimento, aquela voz interna que diz, "isso sim" ou "isso não".


Como animais do topo da cadeia, temos duas faculdades únicas, como dito por Sadhiguru: a memória e a criatividade.


A mente está tão agitada, pois varia entre lembrar-se de algo, hipoteticamente melhor, e os pensamentos criadores de futuro terrível. Isto é a própria criatividade condicionada as tendências negativas.

É possível que chame-se ansiedade.


Esta mente que vaga entre memória e criatividade, ou passado e futuro, precisa se conectar com a logística organizada do ciclo circadiano, das funções inatas do corpo, para que tenhamos melhor adaptabilidade a realidade que se apresenta, para que se possa preservar a saúde física e mental. Para ter discernimento.


Nada disso é construído sem método, dedicação e experimentação.



A logística do bem estar.

O ciclo circadiano não é igual para todos.

Embora a função energética dos órgãos, esteja descrita em pares de horários relativos aos órgãos, a expressão pode ocorrer de modo diferente para o indivíduo; e então temos pessoas que são mais ativas de manhã, outras durante a tarde e outra a noite. É normal.

Todos os problemas são sobre os excessos e as deficiências.

Por conta deste relógio orgânico, há uma logística muito bem estabelecida, ou seja, cada função inicia e termina sua ação, respeitando uma ordem e sequencia inteligentes.

Quando esta logística não é respeitada, poderá trazer uma série de malefícios como irritabilidade, má digestão, diminuição da capacidade criativa, sonolência, insônia, bloqueio de aprendizagem, falha de memória, baixa na imunidade.

Experimentamos logística em todos os momentos da nossa vida. Quando nos levantamos e primeiro fazemos isso e depois aquilo. Quando vamos ao supermercado e primeiro adquirimos os secos e só depois os gelados.

O conceito de logística é inerente a adaptação para sobrevivência, e podemos usar com maior inteligência o que está disponível. Bem vindo, discernimento.

Aplica-se a economia no uso da eletricidade na sua casa, aplica-se a "economia" mais sustentável em relação a sua saúde.

Sendo assim não adianta comprar um curso e não fazê-lo, pois já há um outro que parece ainda melhor. Também não adianta navegar entre mil lives e não ter nenhuma aplicação de ordem prática. É como andar pela casa e acender todas as lâmpadas, enquanto só um cômodo está ocupado.

É muito possível interromper o gatilho emocional que leva o dedo à se inscrever em todos os work shops.

O discernimento pode estar numa pausa da respiração.



Mas, porque o corpo?


Sem corpo, não existe experiência.

Todos os processos conhecidos e testados, com resultados mensuráveis, passam por criar uma rotina aplicável e prática, que seja integrada a sua vida.

Assim é com a respiração, com a yoga, com o Equilibrio de Córtices do BodyTalk, com a meditação, com a auto massagem.

Parar e fazer. Dar prioridade.



A logística de Alexandre III, O Grande


O rei Alexandre foi um estratégico e usou a logística em sua máxima expressão.

Estudava os inimigos, utilizava a tecnologia disponível na sua época, desenvolvia alianças, distribuía os suprimentos por toda a tropa de forma equânime, usava informação sobre o clima, o tempo e o espaço, estudava os mapas, elaborava rotas alternativas, mantinha as tropas animadas em seu objetivo.


Alexandre possuía grande discernimento para estabelecer o que era necessário, quando saía para sua batalhas. Alexandre tinha como companheiro inseparável, um volume da Ilíada, com muitas anotações do seu antigo professor, Aristóteles; o que sinaliza que o entendimento do ser humano fazia parte do pensamento estratégico.

Ele sabia aonde queria chegar. Sabia utilizar os alimentos. Estudava o ambiente, combinava avanço, nutrição das forças e descanso.

Sabia que excessos levam ao desgaste. Talvez soubesse sobre os ciclos circadianos.

O rei Alexandre se conduzia.


Nas nossas batalhas pessoais, expostos a tantas incertezas, é interessante que possamos utilizar os princípios da logística para o nosso bem estar, usando muito bem os recursos, nos mantendo nutridos no corpo e no ânimo da mente, para que no decorrer da batalha, sejamos condutores do nosso próprio carro de batalha - o corpo e a mente - tendo energia, inclusive, para auxiliar os feridos e lidar com as perdas.


Ao final, teremos certeza de que valeu a pena não desistir.







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