Esperança sobre fundo azul e rosa.


Ando bem atenta ao que está acontecendo no mundo. Existem vários mundos, tantos quantos são os observadores. Há o mundo interno e aquilo que ainda identificamos como externo, aonde, acho que ninguém duvida, estamos presenciando mudanças com uma incrível velocidade e, aqui, cabe outra dualidade, pois são notícias de mudanças "boas" e "ruins". Cabem as aspas, pois bom ou ruim é modulado pelo filtro intencional que cada um usa.

Seguindo este pensamento, interno ou externo e bom ou ruim, são apenas pontos referenciais. Somos cheios de certezas, mas é bem interessante duvidar das certezas.

Realidade é aquilo aonde coloco a minha atenção, devidamente impregnada por todos os conceitos, crenças e projeções que tenho, sobre o que acho que é melhor e como deveria ser e construo uma sensação subjetiva de "sentir concretude". Assim, dizemos que tal coisa ou pessoa é confiável ou não; e isto não deverá modificar-se, mantendo assim o princípio inicial da certeza.


Ufa! É cansativo tentar controlar as coisas. Principalmente porque não podemos controlá-las. Li em algum lugar que se tivéssemos controle, não perderíamos o controle.


De qualquer modo a pergunta que me fiz estes dias foi; para o quê estou dedicando atenção?


Sou dessas pessoas que pratica meditação ativa, o que significa que qualquer coisa serve para me fazer investigar o que sinto. É o princípio básico de dentro-fora.


Descobri que eu estava praticando - ou melhor - estava dedicando minha atenção para a desesperança. Sabe, são notícias demais que ferem meus sentidos e sentimentos. Bichos em sofrimento, florestas no chão, água contaminada, decisões excludentes, jovens sem futuro, crianças interrompidas, gente caída, literalmente, nas ruas e tantas outras coisas. Mas, o fato é que ao mesmo tempo em que isto acontece, tem gente criando soluções e descobrindo coisas maravilhosas, na mesma velocidade incrível. É a mudança. E mudança é somente isso: mudança.

Heráclito de Éfeso foi um filósofo considerado o "pai da dialética". Recebeu a alcunha de "Obscuro". Obscuro porque referia-se à impermanência como única atividade própria da vida, ao dizer " tudo flui, nada permanece". Também é dele a frase enigmática “a rota para cima e para baixo é uma e a mesma”. Heráclito estava lá, muito antes das práticas modernas, à dizer que tudo muda, o tempo todo. ( Vai daí Lulu...)


Desejamos o status contínuo de segurança, desejamos a permanência; viver uma época conturbada por erupções e maremotos nos deixa muito instáveis e provoca uma anestesia sensorial como defesa, já que estamos buscando ficar agarradinhos naquilo que nos parece conhecido e, então, chamamos esses tempos de obscuros.

Como então abrir um espaço, ainda que pequeno, onde caiba movimento de esperança?

Meditar, meditar, meditar. Silenciar a mente faladora e abrir a perspectiva de estar em atenção. Acredite, você pode fazer isso enquanto frita o seu ovo.

Atenção é contatar o que você está sentindo, enquanto faz ou observa alguma coisa. Nosso corpo sabe fazer isso desde sempre.

É muito poderoso saber o que está sendo sentido, expresso por dentro.


Temos sido ensinados por mil metodologias a disfarçar os sentimentos, tentando um pouquinho mais de controle, estimulados à retirar os olhos das coisas difíceis, desviar das sombras, sem nos dar conta do gotejamento deste anestésico da compaixão.


A coisa mais amorosa que posso fazer por mim é ser inteiramente eu, com meus desconfortos inclusive, exatamente para que eles me ensinem o que precisam ensinar e assim posso mais me conhecer e amar.


Fomos ensinados a rir baixinho, porque rir é coisa de gente louca e alguém pode se ofender. Fomos ensinados que chorar é coisa de gente fraca e se deve engolir o choro, por isso há pessoas que pedem desculpas quando choram. Nos ensinaram que a raiva é coisa de gente desequilibrada e quando com muita raiva, dizemos que estamos apenas chateados. Fomos ensinados que não devemos reconhecer certos sentimentos e que deveríamos ter um milhão, pois isso sim vai trazer bem estar.


Fomos desconfigurados e passamos a entender as emoções como adversidades e não como potenciais. Mas se não sabemos o que sentimos, não sabemos quem somos, nos colocando como um ponto fora da curva; afinal "todo mundo" está feliz, não é?


Eu diria que o primeiro item da investigação, é fazer o reconhecimento do que se sente e eu estava sentindo desesperança. Pronto!


Desesperança é um estado de um vazio estranho. Está vazio e, incrivelmente, não há espaço para preencher com nada. O vazio, naturalmente, deveria requerer algo para preenche-lo; mas a desesperança é um status perverso. Lembra-me alguém sentado no deserto, cujo oásis está ali adiante, mas não vale à pena ir, pois a água de lá, poderá secar. Então, não há movimento que se justifique fazer. Paradoxalmente, fica tudo tão cheio de vazio, que pesa. E a gente desiste. Des-existe.


Não é como a tristeza, emoção natural, feita pra gente sentir na transitoriedade da alegria. Nem é como o luto, onde aconteceu uma perda direta e há um tempo necessário e saudável de parar e recolher.


A desesperança rouba nossas ações, nosso brilho, nossa conexão e criatividade, faz recolher aquele braço que se estenderia com a energia do fazer. A desesperança nos torna escravos concordantes de tudo que dizemos que não queremos. Acho mesmo que minar a esperança é uma manobra perversa, estrategicamente aplicada, pois desacreditamos paulatinamente da nossa força. Desistimos, des-existimos.


Precisamos despertar para o auto cuidado. Auto cuidado é poder reconhecer o que se sente e respeitar isso, para então movimentar para outro ponto. É como o jogo da vida; anda vinte casas, volta três, cede a vez, para por um tempo, às vezes a gente é posto pra fora e tem que aguardar outra rodada; mas há aprendizados muito profundos em cada movimento e nenhum deve ser desprezado.


A natureza, de modo geral, tem sido minha fonte de inspiração. A natureza nos fala o tempo todo, pois somos a natureza, somos poeira cósmica. Contemplar a si mesmo é contemplar a natureza à se expressar. Para o que você olha? O que você ouve? Como você se move? O que está cheirando no ar? Que gosto tem a vida agora? Para que anestesiar-se? Onde contrai? Onde tem espaço? Como é ficar de pé? Como é estar deitado? Que tensão há nos seus ombros agora? E o que você pode fazer com tudo isso?


Eu não sei o que você perdeu. Talvez seu emprego, sua namorada, um filho, dinheiro, uma amizade importante, seu tempo, o avião, o casamento, seu negócio, as certezas, a batedeira de bolo bem na hora de fazer o bolo...


Seja o que for, precisamos praticar esperança. Esperança, não de esperar passivamente. Esperança de ESPERANÇAR. Esperançar tem em si um movimento, uma cor, uma temperatura, um sabor, um aroma e pode acontecer em uma fração de segundo, numa variação vibratória, uma frequência de ondas de bem estar.


Sentidos de percepção sutil te convidando a trazer preenchimento concreto de si mesmo, nascendo de dentro. A concretude pede que tenhamos ações favoráveis em relação ao que sentimos. Talvez isto possa chamar-se aceitação. Talvez isso possa chacoalhar a chama que existe dentro.


Meditar, contemplar, tem sido um grande instrumento de auto cuidado.

Estava eu ali no meu quintal, reconhecendo a desesperança, quando pula uma esperança sobre meu vestido azul e rosa. Eu poderia ter interpretado como apenas um inseto... mas o estado de contemplação ativa aciona circuitos diferenciados de percepção.


É apenas isso, nenhuma tentativa de enganar a desesperança que eu sentia, nenhuma ideia de projetar pensamento "positivo"; apenas estar presente observando a esperança e permitindo sentir o status interno para mais bem estar.


Foi sim, foi um presentinho verde da natureza, mas você pode fazer isso com sua garrafa de água preferida.


Exista! Esteja presente. Observe esperança, ainda que o jogo pareça adverso.

Lembra do Heráclito, ou do Lulu: vai passar.

Celia Barboza


​© 2023 by Celia Barboza - Site criado por Rica Maia

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